Sexta, 06 Março 2026 04:40

    Chorando alto na praça

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    Chorando alto na praça AROLDO PINHEIRO

    Em Maceió, grupo eclético se reúne toda semana para valorizar a boa música brasileira (Fotos: AROLDO PINHEIRO)

    MACEIÓ - Na manhã de um domingo qualquer, em Jatiúca, a duas quadras da praia, a música sublime chega aos ouvidos do passante que dá uma parada e circula 360 graus em seu próprio eixo procurando localizar de onde vêm os acordes. Apurando a visão, vê-se, no miolo da Praça do Lions, cerca de 50 pessoas se remexendo com o brasileiríssimo som de chorinho.

    Não há como resistir.

    Aproximando-se do furdunço, as pernas começam a se remexer tentando entrar no ritmo animado do grupo composto por velhos, jovens e crianças que se reúnem para prestigiar músicos - famosos ou não - que têm um único objetivo: não deixar o choro morrer.

    Pistons, clarinetes, trombones, saxofones, flautas, contrabaixo elétrico, violões, violas, cavaquinhos e bandolins são acompanhados por surdos, triângulos, atabaques, reco-recos e agogôs que, improvisadamente, desfilam repertório, também improvisado, com o que há de melhor na música brasileira. 

    Sim, apesar de o grupo denominar-se Roda de Choro de Alagoas, qualquer estilo musical pode sair a qualquer momento.

    Conversando informalmente com um idoso que encostou na Banca do Dudu para uma cervejinha, a pernambucana Carmem Cabral Garcia diz-lhe de sua preferência por "Que nem jiló". Para surpresa da turista, aquele idoso, em seguida, pega um violão, se mistura aos músicos e faz-se acompanhar no arrasta-pé de Luiz Gonzaga. Descobre-se, então, que o homem do violão é o maestro Wellington Pinheiro, especialista em instrumentos de corda.

    Todos ali querem chorar. O grupo não tem número fixo de participantes. Nem classe social definida. Advogados, engenheiros, comerciantes, comerciários, barraqueiros, garçons, funcionários públicos têm lugar garantido. Desde que saibam tocar alguma coisa.  Idade também não é barreira: o cavaquinho de Fábio, 10 anos, é tão importante quanto o trombone do octogenário Marcelo. E Marcelo já deixou os 60 pra trás faz tempo.

    Os encontros têm sido feitos nas manhãs de domingo. ”É que todos têm lá seus compromissos e fica difícil coordenar.  Aqui na Praça do Lions, a gente tem essa sombra maravilhosa e espaço para as crianças brincarem enquanto os pais se divertem", diz Siqueira Lima.  O oficial bombeiro Siqueira Lima, compositor, expert em instrumentos de sopro, maior entusiasta de grupo, organizador da agenda, promotor dos encontros e mestre de cerimônia faz questão de frisar que eles fazem música por amor à arte. "Se algum órgão governamental ou algum político se meter a nos ajudar, não aceitamos. Esse povo só quer tirar vantagem", justifica.

    E chorando, sem derramar lágrimas, essa turma segue divulgando o gostoso ritmo que encanta e deleita. Visite-os no YouTube e no Instagram.

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    Aroldo Pinheiro

    Aroldo Pinheiro,  roraimense, comerciante, jornalista formado pela Universidade Federal de Roraima. Três livros publicados: "30 CONTOS DIVERSOS - Causos de nossa gente" (2003), "A MOSCA - Romance de vida e de morte" (2004) e "20 CONTOS INVERSOS E DOIS DEDOS DE PROSA - Causos de nossa gente".

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