Há um tipo de cliente que chega com cálculo, não chega com barulho. Não é o ostensivo, nem o que grita na obra, ao contrário, entra baixo, concorda com tudo, parece razoável. É justamente aí que mora o problema. O Senhor no C da Curva não confronta,
ele acumula, guarda concessões, registra flexibilizações e, quando você percebe, já
não executa um contrato: está sendo cobrado por uma dívida que nunca contraiu.
Ele não negocia preço, negocia narrativa, onde cada desconto não encerra uma
etapa, mas abre outra. Para ele, ceder não é gesto comercial, é prova de que havia gordura.
E assim ele vai comprimindo o processo até deformá-lo, questionando detalhes e
dando a impressão de que tudo se resolve com pequenos ajustes, enquanto desmonta
o conjunto.
Na obra, atinge seu auge. A curva ABC ensina que poucos itens concentram a
maior parte do custo (os “A”), enquanto muitos itens baratos têm impacto mínimo (os
“C”). O Senhor no C da Curva ignora os “A”, desconfia dos “B” e se dedica aos “C”. Discute
parafusos, questiona pregos, pede múltiplos orçamentos irrelevantes, enquanto
decisões estruturais passam despercebidas. Economiza no café e perde a cafeteira.
Ao focar no que não importa, desmonta o que importa. Interrompe fluxos, reabre
decisões, fragmenta equipes. A obra não avança, ela constantemente recomeça. O
tempo cobra e cronograma vira peça decorativa. E é nesse cenário que ele acusa atraso,
ignorando o rastro de interferências que produziu.
O pagamento vira instrumento. Não se paga pelo executado, mas pelo que ele
decide reconhecer. Surge o “não estou satisfeito”, sem critério, sem métrica, apenas
percepção subjetiva. O combinado perde força diante de uma régua pessoal e invisível.
E então vem o mais sofisticado: ele cria narrativa, apagando a própria interferência
e transformando consequência em culpa alheia. Economia vira obrigação, eficiência
vira dever e problema vira incompetência.
No fim, quem buscava economizar paga mais em tempo, retrabalho, desgaste e dinheiro.
A obra perde coerência, e o profissional passa a se defender em vez de construir.
O Senhor no C da Curva não é um acidente, ele é um padrão.
E ao leitor que trabalha na arte da construção civil, segue um conselho bastante
valioso: assim que identificar um cliente no perfil do Senhor no C da Curva, corra e se
esconda. Esse perfil não deseja construir, ele deseja vencer uma guerra que existe apenas
em sua própria imaginação!