Sábado, 16 Mai 2026 15:57

    O Senhor no C da Curva

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    Há um tipo de cliente que chega com cálculo, não chega com barulho. Não é o ostensivo, nem o que grita na obra, ao contrário, entra baixo, concorda com tudo, parece razoável. É justamente aí que mora o problema. O Senhor no C da Curva não confronta,
    ele acumula, guarda concessões, registra flexibilizações e, quando você percebe, já
    não executa um contrato: está sendo cobrado por uma dívida que nunca contraiu.
    Ele não negocia preço, negocia narrativa, onde cada desconto não encerra uma
    etapa, mas abre outra. Para ele, ceder não é gesto comercial, é prova de que havia gordura.
    E assim ele vai comprimindo o processo até deformá-lo, questionando detalhes e
    dando a impressão de que tudo se resolve com pequenos ajustes, enquanto desmonta
    o conjunto.
    Na obra, atinge seu auge. A curva ABC ensina que poucos itens concentram a
    maior parte do custo (os “A”), enquanto muitos itens baratos têm impacto mínimo (os
    “C”). O Senhor no C da Curva ignora os “A”, desconfia dos “B” e se dedica aos “C”. Discute
    parafusos, questiona pregos, pede múltiplos orçamentos irrelevantes, enquanto
    decisões estruturais passam despercebidas. Economiza no café e perde a cafeteira.
    Ao focar no que não importa, desmonta o que importa. Interrompe fluxos, reabre
    decisões, fragmenta equipes. A obra não avança, ela constantemente recomeça. O
    tempo cobra e cronograma vira peça decorativa. E é nesse cenário que ele acusa atraso,
    ignorando o rastro de interferências que produziu.
    O pagamento vira instrumento. Não se paga pelo executado, mas pelo que ele
    decide reconhecer. Surge o “não estou satisfeito”, sem critério, sem métrica, apenas
    percepção subjetiva. O combinado perde força diante de uma régua pessoal e invisível.
    E então vem o mais sofisticado: ele cria narrativa, apagando a própria interferência
    e transformando consequência em culpa alheia. Economia vira obrigação, eficiência
    vira dever e problema vira incompetência.
    No fim, quem buscava economizar paga mais em tempo, retrabalho, desgaste e dinheiro.
    A obra perde coerência, e o profissional passa a se defender em vez de construir.
    O Senhor no C da Curva não é um acidente, ele é um padrão.
    E ao leitor que trabalha na arte da construção civil, segue um conselho bastante
    valioso: assim que identificar um cliente no perfil do Senhor no C da Curva, corra e se
    esconda. Esse perfil não deseja construir, ele deseja vencer uma guerra que existe apenas
    em sua própria imaginação!

    Lido 57 vezes Última modificação em Sábado, 16 Mai 2026 23:15
    Eduardo Marques

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