Hudson Romério

    Hudson Romério

    Segunda, 14 Janeiro 2019 13:40

    Crônica natalina

    É dezembro! É Natal! É ano novo! Não sei o que é mais importante: a comemoração do nascimento de Cristo (oxalá!) ou o bom período das vendas e do consumo excessivo de nossas futilidades e solidão?

    Tenho uma amiga que diz que sou pessimista quando escrevo, acho que não é bem assim, também tenho meus dias de razoável felicidade. Aí, meu editor me pediu uma crônica de Natal. Então vamos lá: dingobel, dingobel...

    Dezembro dá a impressão que só começa, tem um fluxo próprio e indeterminado de tempo-espaço. Os dias passam num ritmo singular, alegre e descontraído. Nem percebemos que tudo é uma ilusão atemporal criada por nós mesmos. O que quero dizer é que, no fundo, sabemos que depois dos dias 25 e 31, com todas as festas, voltaremos à cíclica verdade da vida, que nada mais é o mesmo do mesmo do mesmo... A eterna e frustrante repetição desta história tão conhecida por todos. Nada vai mudar! Nada mudará! Nossos planos ficarão pelo meio do caminho: não vamos emagrecer; não vamos conseguir economizar; continuaremos no mesmo emprego medíocre e chato. Ficaremos, sim, mais velhos e desencantados.

    Mas hoje não! Hoje eu estou relativamente bem! E só para contrariar, vou confessar que gosto de dezembro, que, para mim, é o melhor mês do ano. Gosto muito das festas, das comemorações, das confraternizações, das happy hours, dos encontros casuais nos botecos da cidade. Dezembro, enfim, é tudo de bom. Às vezes eu me deixo levar (melhor ainda, me deixo acreditar) por tudo isso. Por essa teia de ilusões em que estou desde que nasci. Assim como a ignorância é uma benção, a vida é uma mentira boa de se viver!

    Mas e o tal espírito de Natal? Por onde anda? Sei que é uma pergunta retórica, mas, como sou do contra, continuarei minha indagação: e o Natal? Já compramos os presentes, enviamos os cartões, as mensagens de felicitações, de agradecimentos, enchemos as caixas de entradas dos e-mails, dos Faces, dos WhatsApps de nossos amigos e conhecidos... Penso que isso seja mais uma forma de sermos lembrados pelos outros do que os outros acharem que foram lembrados por nós. Até dos parentes distantes e esquecidos nos lembramos...

    Acho que dezembro é o mês em que, de alguma forma, procuramos nos redimir de tudo isso, de todas essas coisas que nos incutiram para acreditarmos que é pecado. O ápice do mês é o Natal! Sua ceia! Todos ao redor de uma mesa com pratos e talhares só usados em datas especiais; com todas aquelas comidas raras, doces, guloseimas, bebidas, sorrisos, decorações, luzes coloridas, pisca-piscas, falsos pés de pinheiro...

    Enchemos a pança, nos fartamos de tudo aquilo e, já na madrugada, o sorriso não tem mais graça - é um triste fim de uma noite alegre de um menino que nasceu num estábulo numa noite fria e distante. Feliz Natal!

    Quarta, 09 Janeiro 2019 21:52

    Deus curte jazz

    Dizem que a música alcança o céu...

    Todos os domingos é a mesma coisa! Em todos os lugares ouve-se aquela melodia... Em todos os cantos da cidade... Parece que se multiplica e, a cada fim de semana, lá vem essa coisa que eles chamam de gospel, cânticos, louvores, glorificações ou tudo o mais que se possa definir essa cacofonia irritante e piegas desse povo que se diz o escolhido.

    Essa música é uma catarse coletiva, manipula uma enorme quantidade de gente com promessas utópicas e enche o nosso saco. E o pior é que são manobrados por essa artificialidade que tem as tribulações e agruras como carro chefe – depois, todos serão salvos!
    Que merda! ...

    Será que nunca se perguntaram o que Ele ouve? Quais são Seus gostos musicais? Todos esses sofrimentos, gemidos, performances, showbiz; será que tudo isso alcança o objetivo desejado, que é tocá-Lo e sensibilizá-Lo no seu íntimo e, assim, talvez Ele interceda por nós, ou de alguma forma nos conduza ao tão sonhado paraíso?

    Aquilo segue noite adentro. E eu me pergunto, por que se sofre tanto? A música, desde os primórdios, foi inventada como um elemento de prazer e contemplação humana, para que alcance os céus sim, mas de forma harmoniosa, em paz e com sentimento leve e sem dor.

    Pois sabem o que O consome? O que O devora? É a pusilanimidade do tempo, pois sabe que sua eternidade é quase um carma de sua condição de aquiescência que só os deuses têm de saber o que é certo ou errado - de saber que, mesmo não gostando, têm que ouvir essa bendita música!

    Sei que me acusarão de herege e iconoclasta, mas penso que, aos domingos, do alto do Seu trono, no crepúsculo do dia, Ele contempla sua criação – ao som de um quarteto musical celestial – degustando um bom single malt e tragando um ótimo charuto cubano. É assim: na solidão de todo o seu poder, Deus curte jazz!

     

    Segunda, 19 Novembro 2018 18:10

    Eu prefiro a esbórnia

    Vamos sair pra tomar umas? É isso e pronto! Motivos podem ser muitos ou nenhum para bons momentos, alguns tragos, muitos goles... Bons instantes de prazer não precisam de muito pretexto não! A vida é uma inconsequência do acaso: hoje estamos aqui; amanhã, quem sabe....

    Todo boteco carrega em si um pouco de tudo que perdemos no caminho da vida: juventude, sonhos, amores.. É nessas doses amargas e nas cinzas que caem das baganas do cigarro que tentamos esquecer tudo isso, dessas parcas oportunidades que vieram e se foram sem termos percebidos que ali estavam. Vida segue!

    Nem sei direito de que se trata essa crônica. Se minhas noites mal dormidas pelos meus porres loucos ou das mal dormidas noites pelas ressacas dos meus porres loucos! Simplesmente não sei, até porque nem nas noites eu saio mais, e os botecos já fecharam as portas quando eu os procuro na madruga.

    Pensando aqui com meus botões: por que se prefere a esbórnia? Cheguei à conclusão de que o que nos resta é essa pálida opção da fútil e miserável mesa de um bar, rodeado por semelhantes com as mesmas e desinteressantes vidas. A embriaguez é a pílula vermelha que nos remete ao nirvana ou ao nada.

    O boteco é a esbórnia sintetizada no tempo-espaço, é simplesmente um lugar; um ambiente indefinido entre algumas coisas, objetos sem muita utilidade, mesas, cadeiras e o nada. Música ruim (quase sempre!), terríveis tira-gostos e supostos garçons que nem sempre são isso que a palavra diz o que é: são pessoas que servem as mesas e, com o tempo, tornaram-se um amigo. Nesse contexto empírico, somos todos um só freguês coletivizados em muitos “homo etílico sem rostos”. É como se nos transformássemos em vários bêbados sorvendo um só copo. Todos têm as mesmas utopias, quimeras já esquecidas ou tantas vezes lembradas dessa desilusão que a cachaça provoca, dessa coisa torpe que nos ilude e que nesse breve interstício vamos esquecer o que não queremos esquecer, mesmo sabendo que não queremos lembrar de nada.

    Vamos ao Korova tomar uma! Ou algum copo-sujo que nos dê alguma alegria! Ou a alguma bastança que faça sentido, que nos venda algo forte para nos tirar dessa fantasia que é o mundo real. Vamos tomar umas e quando formos perguntados onde fica a latrina, simplesmente responda: “Você está nela!”. Como disse Cazuza: “E me lembrar, sorrindo, que o banheiro é a igreja de todos os bêbados”. Vamos afogar nossas mágoas, até porque, nelas, já estamos imersos...vamos sim, rir o riso de mais uma semana que nos amargurará dessa tola existência medíocre”.

    Então é isso, vamos tomar uma!

    Terça, 06 Novembro 2018 13:01

    Além do Norte

    Nós, brasileiros, somos gente boa mesmo?

    Sou brasileiro e roraimense. Como diria Gilberto Freyre, tenho a trinitária das raças: indígena, afro e europeia. Desde que me entendo por gente, ouço dizer que o brasileiro é legal, solidário, gente boa. Mas será mesmo? Tirando os velhacos (que de espertos não têm nada!), acho que somos é um bando de idiotas e ingênuos! Beiramos o otarismo! Somos manipulados o tempo todo, viramos xenófobos, não pela razão preconceitual, mas, sim, para chamar atenção. Sofremos desde sempre da carência de não sermos reconhecidos como nacionais, de não sermos enxergados pelo resto do País - eles não gostam da gente; não nos reconhecem como brasileiros. Quando aparecemos nos noticiários é só desgraça. Assim, somos nós, em busca de uma identidade, que nem sabemos direito o que somos e para onde vamos. Somos metade nordestina, um tanto indígena, um pouco do sul, alguns fragmentos da mãe África, resquícios de migrantes e imigrados do além mar, asiáticos, latinos e uns poucos cacos não identificados.

    Somos um caso sui generis no Brasil. Temos uma população predominantemente formada por imigrantes - nos tornamos hostis e xenófobos por nós mesmos. Ao não reconhecermos o outro, estamos negando a nós mesmos. O que nos falta perceber é que somos um povo em formação, somos um Estado de pouco tempo. Fomos muito tempo território federal; boa parte dessas mazelas é reflexo desse período, quando nos mandavam governadores biônicos de toda espécie (e esses foram ficando..., ficando..., ficando...). É perceptível em ruas, feiras, praças, shoppings que somos um mosaico de todo tipo de gente - isso é o que nos metamorfoseia todos os dias em roraimense, roraimados e principalmente em brasileiros – porque é isso que somos: brasileiros.

    Vamos ao que tanto nos aflige atualmente: os venezuelanos. Se tirássemos todos os hermanos de Roraima, não ficasse nenhum por aqui, nossos problemas se resolveriam? Creio que não. Na verdade, esse caso está em terceiro plano. Foi colocado em primeiro plano para servir de publicidade eleitoreira e, mais uma vez, encobrir todas essas disfunções que ocorrem todos os dias em nossa terra; por exemplo: a violência e os assassinatos contra nossos adolescentes, jovens e muitas vezes crianças, que diariamente estão nos noticiários sensacionalistas (tirando a Shirley Rodrigues que, com seu grito solo, denuncia a barbárie) ninguém mais se preocupa com essa parcela da nossa sociedade.

     

    Sábado, 06 Outubro 2018 04:37

    Feliz aniversário!

    Fiz aniversário agora no começo de setembro. Pensei em reunir uns amigos, comprar cervejas, queijo, azeitonas, salame, salsichas, presunto, tudo para preparar um prato de frios. Preparei minha caixinha de som com meu pendrive de músicas e quatro cadeiras (acho que fui até muito otimista).

    O tempo é um deus cruel! Nada escapa de sua inexorável presençaperversa de nos vigiar e nos lembrar todos os dias que hoje será um dia a menos em nossas vidas.

    Percebo que os dias são mais curtos, as semanas passam que nem me dou conta. Que horas são? Quando me dei conta já era setembro! E, assim, mais um ano de minha medíocre existência se consumiu.

    Com o tempo as coisas vão ficando diferentes, vão perdendo a cor, o tom, a razão. As piadas já não têm graça, as novidades sempre são as mesmas, o que era feio ficou mais feio ainda, o belo já não tem o mesmo encanto. E os dias passam, simplesmente passam, até que um dia somos nós que passamos.

    Feliz aniversário.

    Por sorte os meus três convidados vieram. Conversamos um pouco, bebemos muito, ouvimos músicas, comemos os frios e, por um tempo, ficamos alheios olhando para o nada.

    Naquela noite, num certo momento, percebi que as cadeiras mesmo ocupadas por mim e pelos meus comensais estavam vazias. O que estava ali eram quatro corpos inertes - nossas presenças eram mera formalidade. Não fui otimista, mesmo sabendo, fui ingênuo: as cadeiras não estavam vazias, sou eu que já estou raro de mim mesmo.
    A noite se foi.

    Sinto, a cada dia, que a cama fica maior. Talvez seja a minha parca subsistência que esses longos e chatos 49 anos subtraíram de mim. Ou será a falta de outra existência que há muito tempo não existe mais?

    Feliz aniversário pra mim.

    Boa noite.

    Sexta, 21 Setembro 2018 13:41

    Nem índio nem branco

    Fazer cultura e arte é transformar o ordinário em extraordinário. Isso é o que faz o povo brasileiro com sua surpreendente criatividade ao armar estratégias de sobrevivência da maloca à senzala, da tapera à favela. Tudo que produzimos é uma referência de transcrição da cultura popular, quando, partindo das ferramentas dos orixás africanos, dos xamãs indígenas, cria-se uma sofisticada e construtiva caligrafia simbólica: nacional, regional e universal.

    A frágil fronteira entre o que é arte popular e o que é arte erudita é rompida por novos elementos inusitados de nossa cultura, a cultura brasileira, a cultura roraimense, em que toda nossa identidade é simples e transparente.

    Na efervescência cultural dos anos 80 surgiu aqui em Boa Vista o movimento “Roraimeira”, que é o nome dessa transgressiva ação revolucionária de nossa cultura - agora não defendemos mais uma identidade cultural regional - queremos uma “ENTIDADE UNIVERSAL RORAIMENSE-BRASILEIRA!”.

    Desde então, vários artistas locais assumiram essa entidade como forma de ver e compreender a poética do mundo a partir da precária realidade do nosso Estado (na época, território federal). Poderia, então, falar-se que muitos artistas se valeram de uma “estética da precariedade” usada com sofisticação e sensível inteligência construtiva? Inspirada, inclusive, na herança cultural indígena e dos muitos migrantes que cruzaram a grande floresta e transcriaram-se no caboclo: um brasileiro singular e ao mesmo tempo plural.

    O resultado é uma arte de transfiguração da rude realidade roraimense que dialoga sem fronteiras numa região ameríndia, queira ou não queira, rompendo todas as estruturas sociais e culturais de nossa alienada elite econômica e intelectual. E assim, nessa simbiose louca e inusitada, fomos concebidos roraimenses!

    Tivemos ainda o privilégio de nos mesclar com imigrantes de nações vizinhas, donos de uma cultura de raiz milenar que, ao cruzarem com pesar e dor nossos lavrados e matas, trouxeram a força e a magia da arte de seus deuses e ancestrais. Sobre essa diáspora de povos e etnias, Eliakim Araújo versou: “Tudo índio, Tudo parente”.

    Essa é uma pequena amostra do milagre de fé de várias culturas que se intercomunicaram (e se intercomunicam) para formar a consciência do povo roraimense, sociedade formada por seres humanos que há tempos usa uma sofisticada tecnologia a serviço da construção dessa bela identidade cultural. Estamos a urdir a textura cultural desta rica vida simbólica que se aviva a cada dia, a cada mês, a cada ano e ainda surpreende e emociona pelos inusitados diálogos interculturais dessa linda gente.

     

    Terça, 04 Setembro 2018 06:12

    O lotação nosso de cada dia

    De segunda a sexta-feira, estou lá. Lá entre a avenida Mario Homem de Melo e a rua Cerejo Cruz. Eu os aguardo; logo eles passam. O que me surpreende são suas gentilezas – a educação polida na labuta diária. “Bom dia (já estou a bordo)!” O rádio quase sempre ligado no “Acorda Roraima” ou tocando músicas evangélicas. O programa sempre noticiando as mesmas coisas de sempre: é o café requentado de ontem.

    Passageiros embarcam e desembarcam. É gente de todas as etnias, línguas, cores... Às vezes, penso que nem eles sabem para onde estão indo. Bom dia! São homens, mulheres, indígenas, imigrantes, casais, crianças. Tanto faz quem são todos eles, o lotação é democrático. São poucos minutos dentro dele, mas percebo que o mosaico multicultural de Boa Vista é imenso. Bom dia! Às vezes o bom-dia se parece mais com um pedido de socorro: é como se cada passageiro, nesse curto percurso, fugisse do desespero do dia a dia. “Bom dia!”

    São muitas caras, muitos olhares, muito pouca esperança. Somos todos um só. Fomos transformados em muitas cópias de nós mesmos que se multiplicaram em muitos desses desconhecidos. “Bom dia! O Senhor vai descer onde?” “Passa na N-5?” “Vai pela Ataíde Teive?” “Passa no Cambará?” “Bom dia!”

    Ouço o rádio. Ouço a conversa da mulher que desceu antes de mim. Ela estava falando que sua colega de trabalho é uma traidora! A música gospel fala de alguém que foi salvo ao se converter. O senhor que estava sentado no banco de trás dizia que não sabia em quem votaria, mas não votaria mais na atual governadora de jeito nenhum.

    O imigrante venezuelano pergunta (em portunhol) se vai passar perto de algum lugar do qual eu nunca ouvi falar. O motorista diz que sim. Meu ponto de descida está perto. “Bom dia!” Seguimos nossa sina de motorista e passageiro, é o que somos todos: passageiros da vida.

    O táxi lotação é um dos melhores serviços de utilidade pública em Boa Vista. Eles sempre aparecem quando precisamos, seja para chegar ao trabalho, para fazer compras, para não atrasar a um compromisso, para ir ao encontro da pessoa amada, ou para simplesmente ir de um lugar a outro sem nada para ver ou fazer - nem lá, nem cá.

    Esses operários do volante e suas incríveis máquinas transportadoras são a prova da resiliência de nosso povo: somos fortes e guerreiros.

    “Bom dia (estou chegando a meu destino)”.

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