Hudson Romério

Hudson Romério

Fiz aniversário agora no começo de setembro. Pensei em reunir uns amigos, comprar cervejas, queijo, azeitonas, salame, salsichas, presunto, tudo para preparar um prato de frios. Preparei minha caixinha de som com meu pendrive de músicas e quatro cadeiras (acho que fui até muito otimista).

O tempo é um deus cruel! Nada escapa de sua inexorável presençaperversa de nos vigiar e nos lembrar todos os dias que hoje será um dia a menos em nossas vidas.

Percebo que os dias são mais curtos, as semanas passam que nem me dou conta. Que horas são? Quando me dei conta já era setembro! E, assim, mais um ano de minha medíocre existência se consumiu.

Com o tempo as coisas vão ficando diferentes, vão perdendo a cor, o tom, a razão. As piadas já não têm graça, as novidades sempre são as mesmas, o que era feio ficou mais feio ainda, o belo já não tem o mesmo encanto. E os dias passam, simplesmente passam, até que um dia somos nós que passamos.

Feliz aniversário.

Por sorte os meus três convidados vieram. Conversamos um pouco, bebemos muito, ouvimos músicas, comemos os frios e, por um tempo, ficamos alheios olhando para o nada.

Naquela noite, num certo momento, percebi que as cadeiras mesmo ocupadas por mim e pelos meus comensais estavam vazias. O que estava ali eram quatro corpos inertes - nossas presenças eram mera formalidade. Não fui otimista, mesmo sabendo, fui ingênuo: as cadeiras não estavam vazias, sou eu que já estou raro de mim mesmo.
A noite se foi.

Sinto, a cada dia, que a cama fica maior. Talvez seja a minha parca subsistência que esses longos e chatos 49 anos subtraíram de mim. Ou será a falta de outra existência que há muito tempo não existe mais?

Feliz aniversário pra mim.

Boa noite.

Fazer cultura e arte é transformar o ordinário em extraordinário. Isso é o que faz o povo brasileiro com sua surpreendente criatividade ao armar estratégias de sobrevivência da maloca à senzala, da tapera à favela. Tudo que produzimos é uma referência de transcrição da cultura popular, quando, partindo das ferramentas dos orixás africanos, dos xamãs indígenas, cria-se uma sofisticada e construtiva caligrafia simbólica: nacional, regional e universal.

A frágil fronteira entre o que é arte popular e o que é arte erudita é rompida por novos elementos inusitados de nossa cultura, a cultura brasileira, a cultura roraimense, em que toda nossa identidade é simples e transparente.

Na efervescência cultural dos anos 80 surgiu aqui em Boa Vista o movimento “Roraimeira”, que é o nome dessa transgressiva ação revolucionária de nossa cultura - agora não defendemos mais uma identidade cultural regional - queremos uma “ENTIDADE UNIVERSAL RORAIMENSE-BRASILEIRA!”.

Desde então, vários artistas locais assumiram essa entidade como forma de ver e compreender a poética do mundo a partir da precária realidade do nosso Estado (na época, território federal). Poderia, então, falar-se que muitos artistas se valeram de uma “estética da precariedade” usada com sofisticação e sensível inteligência construtiva? Inspirada, inclusive, na herança cultural indígena e dos muitos migrantes que cruzaram a grande floresta e transcriaram-se no caboclo: um brasileiro singular e ao mesmo tempo plural.

O resultado é uma arte de transfiguração da rude realidade roraimense que dialoga sem fronteiras numa região ameríndia, queira ou não queira, rompendo todas as estruturas sociais e culturais de nossa alienada elite econômica e intelectual. E assim, nessa simbiose louca e inusitada, fomos concebidos roraimenses!

Tivemos ainda o privilégio de nos mesclar com imigrantes de nações vizinhas, donos de uma cultura de raiz milenar que, ao cruzarem com pesar e dor nossos lavrados e matas, trouxeram a força e a magia da arte de seus deuses e ancestrais. Sobre essa diáspora de povos e etnias, Eliakim Araújo versou: “Tudo índio, Tudo parente”.

Essa é uma pequena amostra do milagre de fé de várias culturas que se intercomunicaram (e se intercomunicam) para formar a consciência do povo roraimense, sociedade formada por seres humanos que há tempos usa uma sofisticada tecnologia a serviço da construção dessa bela identidade cultural. Estamos a urdir a textura cultural desta rica vida simbólica que se aviva a cada dia, a cada mês, a cada ano e ainda surpreende e emociona pelos inusitados diálogos interculturais dessa linda gente.

 

De segunda a sexta-feira, estou lá. Lá entre a avenida Mario Homem de Melo e a rua Cerejo Cruz. Eu os aguardo; logo eles passam. O que me surpreende são suas gentilezas – a educação polida na labuta diária. “Bom dia (já estou a bordo)!” O rádio quase sempre ligado no “Acorda Roraima” ou tocando músicas evangélicas. O programa sempre noticiando as mesmas coisas de sempre: é o café requentado de ontem.

Passageiros embarcam e desembarcam. É gente de todas as etnias, línguas, cores... Às vezes, penso que nem eles sabem para onde estão indo. Bom dia! São homens, mulheres, indígenas, imigrantes, casais, crianças. Tanto faz quem são todos eles, o lotação é democrático. São poucos minutos dentro dele, mas percebo que o mosaico multicultural de Boa Vista é imenso. Bom dia! Às vezes o bom-dia se parece mais com um pedido de socorro: é como se cada passageiro, nesse curto percurso, fugisse do desespero do dia a dia. “Bom dia!”

São muitas caras, muitos olhares, muito pouca esperança. Somos todos um só. Fomos transformados em muitas cópias de nós mesmos que se multiplicaram em muitos desses desconhecidos. “Bom dia! O Senhor vai descer onde?” “Passa na N-5?” “Vai pela Ataíde Teive?” “Passa no Cambará?” “Bom dia!”

Ouço o rádio. Ouço a conversa da mulher que desceu antes de mim. Ela estava falando que sua colega de trabalho é uma traidora! A música gospel fala de alguém que foi salvo ao se converter. O senhor que estava sentado no banco de trás dizia que não sabia em quem votaria, mas não votaria mais na atual governadora de jeito nenhum.

O imigrante venezuelano pergunta (em portunhol) se vai passar perto de algum lugar do qual eu nunca ouvi falar. O motorista diz que sim. Meu ponto de descida está perto. “Bom dia!” Seguimos nossa sina de motorista e passageiro, é o que somos todos: passageiros da vida.

O táxi lotação é um dos melhores serviços de utilidade pública em Boa Vista. Eles sempre aparecem quando precisamos, seja para chegar ao trabalho, para fazer compras, para não atrasar a um compromisso, para ir ao encontro da pessoa amada, ou para simplesmente ir de um lugar a outro sem nada para ver ou fazer - nem lá, nem cá.

Esses operários do volante e suas incríveis máquinas transportadoras são a prova da resiliência de nosso povo: somos fortes e guerreiros.

“Bom dia (estou chegando a meu destino)”.

Top